Unidos na vida profissional e na pessoal, os arquitetos paulistanos Paula Sertório e Victor Paixão comandam o PAX.ARQ desde 2010. O estúdio multidisciplinar, com premiações nacionais e internacionais, cria projetos em diversas escalas, da arquitetura ao design, cuja principal premissa é perseguir a inovação, aliando as tecnologias tradicionais às digitais.

Qual foi o primeiro mobiliário que vocês desenvolveram independente dos projetos de arquitetura ? 

O móvel de estreia foi a cadeira Atiati em 2008, concebida antes de fundarmos o estúdio. Foi também nosso primeiro contato com as abraçadeiras de náilon, usadas para lacrar malas. Nós buscávamos materiais alternativos e decidimos utilizar o lacre para fixar a tela de proteção do assento e do encosto na estrutura tubular de aço, que pode funcionar como cadeira ou banco para acomodar duas pessoas (veja fotos abaixo). Em 2018, faremos uma versão comemorativa de dez anos da peça.

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A arquiteta Paula Sertório verifica as abraçadeiras de náilon usadas nas placas de metacrilato do banco Bombô.

A pesquisa de materiais inusitados é um dos pontos fortes do trabalho de vocês. Na linha Maré, vocês usam resíduos de madeira. Como chegaram a esse material?
Sempre buscamos materiais do nosso cotidiano para colocá-lo em uma nova situação, caso das abraçadeiras de náilon. Na linha Maré, de 2016, tivemos contato com a matéria-pima usada na construção civil durante uma pesquisa para nossos projetos de arquitetura. Trata-se de um painel de madeira laminada colada de forma cruzada que substitui paredes estruturais. Ele é chamado de CLT – Cross Laminated Timber. Quando visitamos o fabricante, chamou-nos a atenção o grande formato e a espessura das placas, além da quantidade de sobras no local. A partir dessa vivência, criamos uma linha de mobiliário e utensílios que exalta as formas sinuosas dos veios da madeira, e que se adapta ao formato de cada sobra e às necessidades do cliente.

De mesas a objetos, a linha Maré reaproveita as sobras da indústria da construção civil.

A linha Bombô também emprega resíduos da indústria, tem montagem simples e múltiplas possibilidades de acabamento. Como surgiu essa ideia?
Desenvolvemos o projeto em 2013 a partir das sobras padronizadas que nos foram fornecidas por uma grande fábrica de móveis. Eram peças relativamente pequenas que nos induziram a pensar em um mobiliário que fosse agrupado, no melhor conceito: a união faz a força! (risos) Desenhamos o banco Bombô a partir de partes unidas pelas abraçadeiras, que são extremamente resistentes. Por ser produzida com itens provenientes de sobras, a linha nos possibilita parcerias com diversas empresas, que fornecem seus resíduos para a execução dos bancos com diferentes materiais. É interessante também destacar que, para melhor aproveitamento desses resíduos, desenvolvemos um algoritmo para descrever a forma do Bombô.  Após esse trabalho, alterando a mesma programação, fizemos o balanço Cocar, de 2014, que possui a mesma genética do Bombô.

O projeto ZeroMaquina surgiu em paralelo ao processo criativo da Pax.Arq. Qual é a proposta dele?
Diante de necessidades específicas da Pax.Arq e da falta de fornecedores aptos a resolver e executar algumas de nossas ideias, decidimos investir, em 2014, numa oficina com equipe capacitada e equipamentos adequados para atuar na execução de projetos de design, arquitetura e arte. A ZeroMaquina tem como principal objetivo transformar ideias em realidade, aproximando o pensar do fazer.

O casal de arquitetos Paula e Victor criaram juntos a PAX.ARQ e a ZeroMaquina.
As peças são fabricadas na oficina da ZeroMaquina, instalada no térreo do edifício. No primeiro piso, fica o estúdio da PAX.ARQ.

Vocês são sócios e casados. Como funciona essa dinâmica?
Temos consciência do quanto somos complementares e esta é a base do nosso relacionamento profissional e pessoal. Os projetos da PAX.ARQ contêm características de ambos e, por isso, esse desenvolvimento é intenso e único. Por ser um estúdio que não se restringe a uma única área de atuação nem tem a pretensão de se especializar em algo – pelo contrário, acreditamos na riqueza da diversidade e no aprendizado constante a partir dela -, sabemos da importância da persistência para fortalecer a marca. Nosso compromisso é com a autenticidade, e estamos dispostos a estudar e compreender novos problemas para dar respostas atuais às necessidades dos nossos clientes.

Momento de descontração entre o jovem casal que assina de objetos a edifícios no estúdio localizado em Pinheiros.

Como surgiu o workshop “O Desenho e a Fabricação Digital”, idealizado por vocês em 2016 e que apresenta o universo da fabricação digital. 
Dividir e somar conhecimento são características inerentes na forma como conduzimos nosso trabalho. O processo de criação e de desenvolvimento dos projetos são bastante democráticos e não à toa o estúdio leva o nome de grupo: PAX.ARQ pode ser traduzido como pessoas, participantes, passageiros. Sempre tivemos vontade de abrir nosso espaço e compartilhar do que fazemos e pensamos, e o workshop serve justamente para isso. O tema propõe aproximar o pensar do fazer. Enfatizamos as necessidades executivas para realizar o que foi planejado, independentemente da escala. O acesso às ferramentas digitais de fabricação proporciona o enfrentamento a um mundo em que se pensa demais e se faz de menos. Devemos repetir ainda este ano o workshop, que contou com o apoio do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) em sua primeira versão.

Victor supervisiona um dos projetos desenvolvido durante o workshop organizado pela dupla e pelo IAB na oficina da ZeroMaquina.

Quais foram os momentos mais marcantes da trajetória profissional da dupla?
No ano passado, recebemos a nomeação espontânea da Casa Oficina para um prêmio internacional de arquitetura, o MCHAP, concedido pelo Instituto de Tecnologia de Illinois (IIT). Concorrer com projetos de arquitetos que admiramos e que sempre nos serviram de referência, foi marcante. Tivemos também a oportunidade de apresentar nosso trabalho nas principais escolas: na Architectural Association, de Londres, e no Instituto dos Arquitetos Americanos (AIA), de Nova Iorque. Já com a ZeroMaquina, foi uma honra receber o prêmio pela cadeira Daki na categoria Indústria do Salão Design 2016, que destacou a perfeição do acabamento da peça.

Reconhecidos como vanguardistas e atentos às novas tecnologia, como foi para vocês receber esse prêmio?
Somos formados em arquitetura e nossa relação com design de mobiliário se deu aos poucos. A cadeira premiada no Salão Design 2016 foi nossa primeira experiência com a madeira bruta. Nossa intenção sempre foi executá-la em nossa oficina mesmo sabendo dos desafios de uma usinagem complexa. O prêmio, que conferiu a qualidade do design e da fabricação, nos encorajou a seguir em frente, atuando desde o projeto até a execução de nossas peças.

Citem três trabalhos favoritos e contem sobre a história e o processo criativo de cada um deles.
No Rio Novo, implantamos varandas de 80 m² por pavimento – 40m² para cada apartamento – em um edifício da década de 1970 no Itaim, em São Paulo. O projeto foi um desafio de engenharia e buscou respeitar as características arquitetônicas do edifício, intervindo de forma sutil e respeitosa. Contou inclusive com a aprovação estética e estrutural do engenheiro calculista do projeto original. Já na Casa Oficina Tecnomec, abordamos um tema das grandes metrópoles: residir e trabalhar em lugares próximos – neste caso, no mesmo endereço, pois o projeto abriga oficina mecânica, salas de aula e a residência do proprietário na edificação. A cadeira Daki nasceu a partir da observação de obras de Salvador Dalí e, por isso, ganhou esse nome. Como já dissemos, foi nosso primeiro contato com a madeira bruta para um projeto de mobiliário. A peça remete às formas orgânicas da natureza e convida o usuário a sentar-se em diferentes posições.

Fragmentos da cadeira Daki, que foi inspirada na obra do pintor espanhol Salvador Dalí.
A cadeira Daki permite sentar em diferentes posições.

Quais são os maiores desafios de comercializar os trabalhos no Brasil?
Um trabalho artístico precisa da sensibilidade do observador para se comunicar. E as pessoas aqui estão pouco sensíveis, portanto muitas vezes não compreendem o projeto e deixam de valorizar e comprar peças com essas características. Tentamos resgatar essa sensibilidade.

Desenvolvida a partir de sobras da indústria, a linha Bombô emprega diversos tipos de materiais de cores diversas.

Para finalizar, citem os sites favoritos de vocês.
São muitos os que acessamos, mas elegemos um que envolve diferentes disciplinas, como arte, arquitetura, moda e design, e tem excelente curadoria e apresentação: o www.yatzer.com.


 

Lançamento exclusivo da PAX.ARQ na Boobam:

Poltrona Pina é inspirada na pinaúna, o ouriço-do-mar. Composta por peças de acrílico transparentes, a peça permite a visualização das abraçadeiras de náilon, que remetem aos espinhos dos ouriços. Nova versão para a linha Bombô, a poltrona segue os conceitos da PAX.ARQ ao aliar o pensamento arquitetônico à tecnologia para melhor aproveitamento das sobras da indústria.

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Disponível em seis cores de abraçadeiras de náilon.

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Visite a nova loja do Zero Máquina:

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A Mesa Lina foi desenvolvida baseada no princípio de encaixe. Ao centro, possui um recorte no qual é possível encaixar um vaso de plantas ou um balde de gelo. Design: Lina Maeoca + ZeroMaquina.

Veja também as divertidas mesas de atividades da linha KIDS ZeroMaquina:

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Escondendo a bagunça, a mesa com cadeirinhas e cestos é perfeita para qualquer ambiente e também pode servir de área para refeições. O tampo e as laterais podem ser revestidos com fórmica no acabamento Lousa, o que possibilita desenhar, além de facilitar a limpeza.


Fotos: Luiza Florenzano

 

Posted by:Regina Galvão

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